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“Cuidado com grupos paramilitares”, capítulo do livro “Sobre a Tirania”, de Timothy Snyder

“Quando pessoas armadas que sempre afirmaram ser contra o sistema começam a usar uniformes e a desfilar com tochas e retrato de um líder, o fim está próximo. Quando o grupo paramilitar favorável ao líder se unir à polícia e às Forças Armadas oficiais, o fim chegou”

Por Timothy Snyder

A maior parte dos governos, durante a maior parte do tempo, procura deter o monopólio da violência. Se apenas o governo pode, legitimamente, usar a força, e se esse uso for regido pela lei, as formas de política que aceitamos como naturais tornam-se possíveis. É impossível realizar eleições democráticas, julgar causas em tribunais, formular e fazer cumprir leis ou até levar a efeito qualquer outra atividade de governo quando organizações que não sejam do Estado também têm o direito de usar a violência. Justamente por isso as pessoas e os partidos que desejam minar a democracia e o Estado de direito criam e financiam organizações violentas que se envolvem na política. Esses grupos podem assumir a forma de uma ala paramilitar de um partido político, de guarda pessoal de um político ou de iniciativas cívicas aparentemente espontâneas, mas que com o tempo mostram ter sido criadas por um partido ou por seu líder.

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Os grupos armados primeiro degradam a ordem política, e depois a transformam. Grupos direitistas violentos, como a Guarda de Ferro na Romênia no entre guerras, ou como a Cruz Flechada húngara,no mesmo período, usavam a intimidação contra seus rivais. As tropas de choque nazistas começaram como um destacamento que retirava os adversários de Hitler dos locais onde o partido fazia seus comícios. Do mesmo modo que organizações paramilitares, como a SA e a SS, criavam um clima de medo que ajudou o Partido Nazista nas eleições parlamentares de 1932 e 1933. Na Áustria, em 1938, foia SA local que logo tirou proveito da ausência da habitual autoridade local para saquear, surrar e humilhar judeus, mudando com isso as regras da política e preparando o caminho para a ocupação do país pelos nazistas. Foi a SS que administrou os campos de concentração alemães — zonas sem lei onde as normas de costume não valiam. Durante a Segunda Guerra Mundial, a SS levou a todos os países europeus ocupados pelos alemães a ilegalidade que implantara nos campos de concentração.

A SS surgiu como uma organização fora da lei, tornou-se uma organização que transcendia a lei e acabou como uma organização que desfazia a lei.O uso da violência nos Estados Unidos está demasiadamente privatizado, isso porque o governo federal americano se vale dos serviços de mercenários em guerras e os governos estaduais pagam a empresas para administrar prisões. A novidade é um presidente que deseja manter, durante o mandato, uma equipe de segurança pessoal que durante a campanha usou de força bruta contra adversários. Como candidato, o presidente ordenou que um pelotão de seguranças particulares retirasse oponentes de comícios e também incentivou o próprio público a expulsar pessoas que expressassem opiniões diferentes. Quem protestasse era, primeiro, alvo de vaias, em seguida de gritos frenéticos de “usa” e depois era obrigado a deixar o local. Num dos comícios de campanha, o candidato disse: “Ainda ficou um aí. Tentem retirá-lo. Tirem o que ficou”. Obedecendo sem hesitar, a multidão começou a expulsar pessoas que pudessem ser contrárias ao candidato, sem parar de gritar“usa”. O candidato interveio: “Não é mais divertido do que um comício chato igual a todos os outros?Para mim, é divertido”. Esse tipo de violência grupal tinha como intenção transformar o clima político, e conseguiu seu intento.Para que a violência transforme não só o clima político como também o sistema, as emoções dos comícios e a ideologia de exclusão precisam ser incorporadas ao treinamento de guardas armados.Esses guardas primeiro desafiam a polícia e as Forças Armadas, depois se infiltram nessas organizações e por fim as transformam.

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