Saídas de emergência

selo: BOITEMPO EDITORIAL
páginas: 480
formato: 21cm x 14cm x 2cm
ano de publicação: 2011
ISBN: 9788575591826

R$ 56,00

Sobre o autor

C. Rizek e V Telles)

“Certa manhã, Gregor Samsa despertou e viu-se
transformado num enorme inseto.”
Franz Kafka, Metamorfose

“A cidade murada e protegida por alarmes eletrônicos, a cidade globalizada, trancada em seus imóveis inteligentes, a arrogância da riqueza encarnada no biquíni à venda nos Jardins que custa o mesmo que uma moradia numa favela do subúrbio. Cada habitante sabe disso e vive com aquilo que está ao seu alcance.”

Assim começa a apresentação de Saídas de emergência, livro organizado por Robert Cabanes, Isabel Georges, Cibele S. Rizek e Vera da Silva Telles, que tem como foco as relações entre os habitantes da maior cidade brasileira. Os textos de diversos autores que compõem a coletânea – resultado de longas pesquisas publicadas originalmente na França, em 2009, e agora em português pela Boitempo Editorial – revelam as faces da moeda chamada São Paulo: sexo, drogas e rock ‘n’ roll, emprego, desemprego, violência pública e violência privada. “Os relatos evidenciam as esperanças e as decepções cotidianas, sem ignorar as grandes transformações políticas, econômicas e sociais dos últimos vinte anos”, afirma Michel Pialoux, autor da orelha do livro.

O professor Francisco de Oliveira, autor do prefácio, imaginou para a obra uma forma ao estilo de Kafka: “O que os artigos desse livro indispensável nos descrevem são pessoas transformadas em insetos na ordem capitalista da metrópole paulistana”. No entanto, o caminho escolhido pelos autores dos textos para apresentar as experiências urbanas em prosa foi outro: “são gramscianos”, diz Oliveira, “na medida em que exploram todas as posições, todos os ângulos, todas as expressões e modos de ganhar a vida – na verdade, de ganhar a morte – dos moradores de Cidade Tiradentes, com algumas incursões em Guaianases e outras periferias da cidade”.

Fruto do longo trabalho coletivo de uma equipe composta por pesquisadores mais experientes ao lado de outros mais jovens, de origens e gerações diferentes, os 21 artigos se referem a diferentes “saídas de emergência” e a uma multiplicidade de ângulos de abordagem. “Trata-se da maneira como aqueles que estão submetidos às relações de dominação na cidade tentam superá-las, às vezes procurando construí-las em escala maior que a de seu meio social, por percursos que passam por formas de trabalho e atividade, religião, vida em comum e recomposições familiares”, explicam os organizadores do livro. As estratégias de vida, observadas nas pessoas e nas famílias, representam modos tanto de fugir da responsabilidade direta do trabalho quanto de ressignificá-lo por meios indiretos. O tráfico, por exemplo, é referência econômica (garante a sobrevivência de muitas pessoas), social (ajuda pessoas ou associações) e moral (impregna a vida cotidiana com seus modos de pensar e agir). Frente à complexa realidade urbana, os pesquisadores não fantasiam a honra e o caráter de suas “personagens”; nenhum afirma que o Jardim Maravilha é uma maravilha. “A consciência crítica atenta não resvala em glorificação da pobreza e de sua situação na cidade capital do gigante emergente”, reconhece Oliveira. “A fronteira entre o legal e o ilegal, o lícito e o ilícito, o formal e o informal, não é erguida por eles: é a fantasia jurídica do capitalismo ‘globalitário’.”

Trechos do livro

“No início, o relato de Ismael revela leveza e confiança na vida, pouco consciente de seu meio. Sua maneira de contar sua vida em São Paulo muda: ele sente a necessidade de se interrogar, de se autocriticar, de refletir a respeito de sua relação com o outro para chegar a seus objetivos, de se preocupar com o outro enquanto indivíduo (sua filha, sua esposa). A dificuldade dessa reflexão implica a observação de que a moral se perde, tanto a individual familiar quanto a religiosa. Se nada mais é como antes, nem no tempo nem no espaço, o que lhe resta é continuar a trabalhar, sendo mais atento com o salário, catando nas ruas quando não há trabalho, acompanhando as doenças, seguindo os filhos numa longa adolescência, sem esperar nada da política ou da religião. Já que ele não “engole” mais a vida, pelo menos não se deixa engolir por ela.”

“A renovação do setor associativo (habitação, saúde, educação, alimentação) é alimentada por formas de descentralização, privatização e terceirização dos serviços públicos nos bairros de baixa renda, assim como pelo esfacelamento dos antigos movimentos reivindicativos – já que o neoliberalismo dominante incita essa população a agir, em vez de reivindicar. Essa ação repousa, em grande parte, na atividade das mulheres desses bairros. As cooperativas constituem outra vertente desse novo tecido de atividades sociais e econômicas. A renovação do setor informal e associativo corresponde também ao desaparecimento de amplas parcelas do emprego formal (serviço e indústria), em especial entre as atividades que estão em via de se informalizar (confecção, automóvel, terceirizações em todos os setores), à emergência de formas de trabalho pouco controladas (telemarketing) e ao desenvolvimento de atividades antigas não formalizadas (coleta e reciclagem do lixo).”

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