Sertão, sertões: repensando contradições, reconstruindo veredas

Organizadores: Joana Barros, Gustavo Prieto, Caio Marinho
ISBN: 978-85-93115-33-2
Editora: Elefante
Ano: 2019

R$ 59,90

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Sobre o autor

Caio Marinho

Caio Marinho Mestrando em teoria e história da arquitetura e do urbanismo e graduado em engenharia ambiental pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalha com as questões da produção do espaço desde 2016, compreendendo os nós tecidos com a política na busca e na elaboração de outros horizontes societários. Soteropolitano, tem o sertão como referência — e daí parte para compreender o mundo. Pesquisa e atua nas áreas de engenharia ambiental, urbanismo, sociologia e suas interfaces, tendo desenvolvido pesquisa em parceria com o Laboratório Misto Internacional (IRD/França) e com o Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB). É pesquisador do grupo Espaço e Política, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e presta assessoria à Associação dos Artífices do Centro Tradicional de Salvador (AACTS).

Gustavo Prieto

Gustavo Prieto Professor adjunto de economia política da urbanização na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Graduado em geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre e doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo (USP). Realizou estágio de pesquisa no exterior na École des Hautes Études en Sciences Sociales na área de sociologia política. Em 2016, recebeu da Brazilian Studies Association o prêmio Jon M. Tolman de melhor artigo do ano sobre o Brasil. Foi professor adjunto de geografia regional na Universidade Federal da Bahia (UFBA). É pesquisador do Grupo de Estudos de Teoria Urbana Crítica, no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da usp, e do Grupo de Pesquisa Espaço e Política, na Unifesp.

Joana Barros

Joana Barros Professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Graduou-se em arquitetura e urbanismo na Universidade de São Paulo (USP), onde também realizou dourado em sociologia. É pesquisadora do Grupo Distúrbios, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj); coordena o Grupo de Pesquisa Espaço e Política e o Laboratório de Narrativas Urbanas, na Unifesp; e participa da coordenação do Centro de Memória da Zona Leste de São Paulo. Atuou junto a movimentos sociais urbanos vinculada a assessorias técnicas Usina e Peabiru. Fez parte da ong Fase — Solidariedade e Educação.

Canudos — sua gente, sua terra, suas lutas, seus dissensos instauradores — continua em disputa. Se Canudos e os conselheiristas foram feitos inimigos da República brasileira, do progresso e do desenvolvimento, seus sobreviventes — sobreviventes, não vítimas — espalharam-se como sementes de resistência. Por isso, voltamos a Canudos e às suas lutas. Não para reconstruir o tempo de Antonio Conselheiro como monumento imóvel e petrificado. Trata-se de reconhecer, lá e aqui, o esforço de reavivar “as centelhas da esperança” acesas pela tradição de rebeldia dos pobres, dos trabalhadores, dos oprimidos, que, ao escavar a própria história, vão construindo um modo de ser e de existir que permita romper com as dominações. Voltamos a Canudos, ao sertão e a seus múltiplos sentidos, disputando e contrarrestando os significados impostos desde fora como monumento-barbárie que consolidaram a visão dicotômica e dual entre o sertão e o Brasil. Se o sertão virou o Outro do Brasil, estamos somados a muitas outras Canudos no esforço de ressignificar e renomear o próprio Brasil. […] Este livro se pretende parte do diálogo e da disputa. É uma aposta: somente a tradição dos oprimidos, repensando contradições e reconstruindo veredas, será capaz de despertar as centelhas da esperança por uma vida vivida como construção compartilhada da utopia. Canudos resiste, lá e aqui.

***

No mais de século que nos distancia da guerra de Canudos, vimos a modernização capitalista completar um ciclo inteiro. Canudos representava a resistência a uma modernização econômica em ascensão que precisava subsumir tudo à sua lógica, e que tinha no Estado seu instrumento privilegiado. Já as cidadelas-mundéis de hoje e os Estados de configuração híbrida — Estados-máfia ou Estados-milícia — são sintomas de sua fase descendente, formas de uma modernização em colapso. A forma mais extrema desse colapso é, sem dúvida, a ambiental, na qual a manipulação do mundo concreto em prol da acumulação de valor abstrato vem cobrar sua dívida imperdoável. Afinal, não só o homem cobra suas dívidas, mas também a terra. Não sem certa ironia, a crise ambiental tem se manifestado nas últimas décadas através de grandes períodos de estiagem. As águas estão secando. Os níveis das represas, baixando. O Açude Cocorobó já não consegue ocultar como antes a planície rugosa de Canudos, e os escombros formidáveis do Arraial do Belo Monte, pouco a pouco, dão-se a ver.

— Gabriel Ferreira Zacarias, no posfácio

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