O QUE É O MARXISMO OU BOLCHEVISMO

Autor: Edgard Leuenroth e Hélio Negro
Editora: Entremares
Ano: 2017

R$ 25,00

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Abril de 1919. O Brasil estava em chamas. As lutas sociais, capitaneadas pelo movimento operário, estouraram pelo país afora. Já eram dois anos de greves por toda a parte.

A ascensão da luta de classes no país ocorreu por uma relação entre processos internos e externos. A organização dos trabalhadores vinha em uma crescente desde 1906, quando houve o primeiro Congresso Operário do país, no qual se deliberou a fundação da COB (Confederação Operária Brasileira). Houve uma breve quebra em 1914, com a deflagração da Primeira Guerra Mundial. Se os eventos se desenrolaram longe dos trópicos tupiniquins, seus efeitos foram marcantes para a situação nacional. Todavia, ante a crise econômica causada pelos abalos na ordem internacional, os trabalhadores não baixaram suas cabeças. Com imensa dificuldade para adquirir itens básicos para sua sobrevivência, a classe operária protestou por meio das ligas operárias de bairro. Tal acúmulo organizativo foi essencial para a tomada de São Paulo durante a Greve Geral de 1917.

Como se não bastassem os elementos inflamáveis dados pela conjuntura brasileira, nesse ano ocorre ao leste do globo um evento decisivo: o Czar era deposto e substituído por uma república de conselhos de trabalhadores. Essa notícia vinha corroborar a crença de que a tão almejada Revolução Social estava próxima. A imprensa anarquista proclamava desde o final do século anterior tal prognóstico. Internacionalistas não só na teoria, mas também na prática, as notícias eram interpretadas como uma obra em comum iniciada pelos camaradas russos. Era o momento de intensificar a propaganda, as lutas e ir para cima dos patrões.

Os acontecimentos subsequentes reafirmam o cenário favorável para o movimento operário. Em 1918 foi a vez dos operários cariocas: de agosto a novembro o Rio de Janeiro foi palco de diversas greves, chegando até a uma situação insurrecional. Um ano depois, foi a vez de Porto Alegre, Recife e Salvador serem paralisadas por greves gerais.

Foi em meio a esse contexto que, em abril de 1919, Edgard Leuenroth e Antônio Candeias Duarte (Hélio Negro era seu pseudônimo) escreveram o texto que o leitor tem em suas mãos.

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Antônio Candeias e Edgard Leuenroth eram destacados propagandistas do anarquismo em São Paulo. O primeiro, português, nascido em 1881, migrou para o Brasil aos dez anos de idade, enquanto o segundo, brasileiro, nasceu no mesmo ano do seu companheiro. Ambos tipógrafos, tiveram notória participação na Greve Geral de 1917, fazendo parte do Comitê de Defesa Proletária (CDP).

Diante do cenário anteriormente descrito e da injeção de ânimo dada pela Revolução Russa, os anarquistas no Brasil buscaram criar alternativas para que os conflitos sociais convergissem em um estopim revolucionário. Imersos no mundo do trabalho, os militantes desde o início do século estavam imbuídos na construção de organismos e espaços operários. Buscavam a formação de um projeto classista de caráter autônomo, sem vínculos a nenhuma corrente política específica, e combativo, baseado na ação direta. Para tal objetivo, os anarquistas adotaram como estratégia o sindicalismo revolucionário, defendendo um sindicato aberto a qualquer um, independentemente de sua crença política ou religiosa, desde que fosse trabalhador. Ou seja, a identidade do sindicato era dada pelo recorte de classe.

Se, por um lado, tal escolha fez com que a militância dos anarquistas estivesse incrustada no cotidiano operário, por outro, a estratégia de atuar nos sindicatos tornou-se praticamente a ação exclusiva dos libertários. A formação de organizações de tipo político-ideológico foi, em geral, deixada de lado¹. Essa análise motiva os chamados feitos a ativistas de todo o país a partir de março de 1919 para a fundação do “Partido Comunista do Brasil”. Seu primeiro Congresso ocorre em julho de 1919, no Rio de Janeiro – três meses depois da publicação de “O que é o Maximismo ou Bolchevismo”. Uma reflexão posterior de Leuenroth sobre o congresso pode ser lida nesse livro (“Congresso do Partido Comunista-Anarquista, no Rio de Janeiro em 1919”).

Dessa forma, o escrito de Leuenroth e Candeias pode ser lido como um manifesto do Partido Comunista de 1919. Dividido em duas partes – “O que é o Maximismo ou Bolchevismo” e “Esboço de Programa Comunista” -, é possível notar que o cerne do texto não está nos acontecimentos da Rússia. A Revolução representou um evento impactante, porém nesse momento chegavam poucas informações que ainda passavam por mediação da imprensa europeia. Nesse sentido, é significativo que no texto há poucas menções diretas sobre o que se passava por lá, exceção feita às resoluções do III Congresso Pan-Russo dos Sovietes, ocorrido em janeiro de 1918. A questão central é a situação socioeconômica do proletariado brasileiro, sua miséria que o impede de dispor dos elementos básicos para a sobrevivência. Os autores escrevem sua crítica sem deixar de apresentar suas alternativas para a construção de um novo país, cuja direção estivesse nas mãos dos trabalhadores.

Uma leitura apressada pode cair em uma fácil teleologia, interpretando que tais movimentos foram um prelúdio do Partido Comunista do Brasil (PCB) de 1922. Porém, com uma leitura mais atenta é possível perceber as divergências entre as propostas de 1919 e as postuladas três anos depois. O Partido Comunista de 1919, inspirado nas proposições de Errico Malatesta, condenava a “ação política” – nos termos de hoje diríamos “ação eleitoral” – e defendia o federalismo dos seus núcleos, adotando uma estrutura organizativa completamente distinta da adotada pelos bolcheviques na Rússia e, consequentemente, pelos partidos comunistas por todo o mundo, incluindo o PCB de 1922. Leuenroth e Candeias em diversos momentos reiteram teses que vão ao encontro das proposições libertárias apresentadas em 1919. Para ficarmos em apenas um exemplo: “toda a administração social [deve] assentar no princípio racional da solidariedade, organizando-se de baixo para cima, pela livre federação de agrupações autônomas profissionais, artísticas, científicas e literárias, e garantindo o máximo da liberdade individual dentro do bem-estar coletivo”². Em suma, dada às possibilidades do momento e suas preocupações imediatas, a interpretação do projeto político bolchevique feita por Leuenroth e Candeias atende mais aos seus próprios interesses políticos (criação de uma estrutura organizativa anarquista) do que representar os eventos da revolução.

Portanto, fruto do impacto da Revolução Russa e da ascensão da luta de classes por todo o país, “O que é o Maximismo ou Bolchevismo” é um interessante documento da sua época. Através do texto é possível compreender o estado da questão social no Brasil, mas também quais eram as expectativas dos anarquistas para a construção de um novo país.

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Os anos seguintes direcionaram para outros caminhos. No leste do globo, o regime bolchevique se consolidou e, para isso, perseguiu e eliminou toda sua oposição à esquerda, incluindo os anarquistas. Ademais, o Komintern passou a definir as estruturas organizativas dos diversos partidos comunistas criados mundo afora. No Brasil, o Partido Comunista de 1919 sofreu dura repressão, não conseguindo se estabelecer. As notícias sobre as repressões dos bolcheviques contra outros grupos de esquerda circular e colocaram os militantes diante do dilema: alinhar-se aos bolcheviques, reconhecendo o êxito do seu projeto e ignorando os meios utilizados ou manter-se sob os princípios libertários, renegando a tese pragmática de que o bolchevismo estava empiricamente comprovado. Nessa encruzilhada, parte dos anarquistas imbuídos nesse projeto travaram contatos com o Komintern e decidiram seguir sua linha de conduta ao fundarem, em 1922, o PCB. Outros permaneceram anarquistas, inseridos em um novo cenário no qual disputavam a hegemonia do movimento operário com uma nova corrente de esquerda: os comunistas.

O desenrolar dos eventos esteve presente nas trajetórias biográficas dos autores do texto de 1919. Edgard Leuenroth seguiu no campo libertário, sendo figura de proa do movimento até sua morte. Antônio Candeias tornou-se comunista, responsável por iniciativas editoriais de vulgarização doutrinária, como a Marenglen.

A respeito das tomadas de posição após a publicação de “O que é Maximismo ou Bolchevismo”, nessa edição o leitor conta com quatro textos de Edgard Leuenroth. Além do já citado “Congresso do Partido Comunista-Anarquista, no Rio de Janeiro em 1919”, foram reunidos os seguintes textos: “Apontamentos Elucidativos”, em que o Leuenroth faz um panorama da atuação do anarquismo no seio da classe operária brasileira e “A Ditadura do Proletariado e o Socialismo” e “O Verdadeiro Socialismo está com o Anarquismo”, nos quais o autor faz críticas ao comunismo desde o ponto de vista anarquista. Esses artigos foram publicados originalmente no livro organizado por Edgard Leuenroth, “Anarquismo: um roteiro de libertação social”, publicado em 1963 pela Editora Mundo Livre do Rio de Janeiro.

A intenção da publicação deste livro é a de levar ao leitor o que pensavam os militantes da época e quais foram suas respostas ao se defrontarem com o impacto trazido pela Revolução Russa. A respeito dos julgamentos perante a obra, repetimos as palavras presentes na Introdução da segunda edição do livro: “que cada um faça seu juízo sobre ela”.

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As imagens utilizadas para a capa e as divisões de seções desta nova edição são de Kazimir Maliévitch. Pintor russo nascido em 1878, destacou-se como um dos principais expoentes do Suprematismo, uma das vanguardas da arte abstrata. Porém, poucos sabem do seu vínculo com o anarquismo. Desde 1905 era membro de organizações artísticas horizontais e autogestionárias. Com a eclosão da Revolução de 1917, participou do Soviete de Artistas e publicou a “Declaração dos direitos dos artistas” no jornal “Anarquia”, porta-voz da Federação Moscovita de Grupos Anarquistas³.

A partir do final da década de 1920 foi perseguido pelo regime comunista. No início foi difamado sob a pecha de “individualista”. Depois, perdeu seus cargos oficiais em institutos de arte, foi preso e torturado. Em 1935, morre em Leningrado, abandonado e na miséria. Maliévitch foi mais uma entre as milhares de vítimas da ditadura stalinista.

Notas:

1. Sobre uma análise do dilema organizacional do anarquismo na Primeira República ver dois textos de Alexandre Samis: “Anarquismo, “bolchevismo” e a crise do sindicalismo revolucionário”, em Carlos Augusto Addor e Rafael Deminicis (orgs.), História do anarquismo no Brasil – volume 2, Rio de Janeiro: Editora Achiamé, 2009, pp. 37-49; “Pavilhão negro sobre a pátria oliva: sindicalismo e anarquismo no Brasil”, em Eduardo Colombo (org.), História do movimento operário revolucionário, São Paulo: Editora Imaginário, 2004, pp. 125-189.

2. Trecho retirado desta edição, que pode ser encontrado na página 56.

3. Cf. Cristina Dunaeva, Anarquismo e arte na Rússia revolucionária: a atuação dos artistas de vanguarda em Angela Roberti Martins e José Damiro Moraes (orgs.), Anarquismo em questão: conceitos, práticas e trajetórias, Rio de Janeiro, no prelo.

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